07h15min
Acordei de repente, uma certa manhã fria de novembro, meus olhos inchados não reparavam as cores que sintonizavam o meu quarto, radiante pelas luzes matinais que sempre batiam na janela lateral esquerda da parede negra. Esse era um lugar onde sempre me sentia mal humorado, não sei por que, mas parecia que meu coração parava de bater ali.
Banhei-me. Vesti-me. Meu corpo caminhava calmamente rumo à lanchonete de uma classe não muito vista pela sociedade, enquanto meu mundo dava voltas e mais voltas à minha frente, passadas velozes, de uma total rapidez. Sentia o cheiro das rosas entupindo minhas narinas, quando por acaso alguém esbarrou em mim.
- Desculpe senhor. – Falou a educada moça de olhos azuis que sincronizava os passos, vindos de outra direção. Eu já havia visto ela antes algumas outras vezes e sempre tinha a impressão de conhecê-la de algum lugar. Acho que a farda que se encontrava colada em minha pele a impediu de me reconhecer. Sempre a adorava quando a essência floral de sua pele encharcava-se em mim, o formato de seu rosto conduzia-me a delirar. Seu cheiro. Sua pele. Seus olhos. Era tudo tão belo, tão cintilante às pequenas aberturas por onde eu conseguia ver, que nem me imaginava nesse mundo.
-Desculpe-me você, bela moça. – Eu falei. Nem sei de onde consegui tirar ar para proferir aquelas simples palavras. Ela tornou a andar. Eu sabia que lá, não conseguiria tê-la para mim. Sua percepção falhava sempre que me avistava, mas ela era tão dócil, que só de notá-la meu mundo acelerava em segundos.
Era uma rua não muito larga, mas às vagarosas passadas poderiam acontecer coisas que jamais esperei, ali, na velha via da quinze com a treze.
Seus passos de balé iam em direção ao outro lado, eu contemplava aquilo, nem me dei conta do carro prateado que seguia em direção ao sinal vermelho. Verde! Assustei-me, naquela hora senti-me obrigado a salva-la, me atirei sem pensar na frente do carro, achei que poderia pará-lo. É sempre assim quando se ama, os traços meticulosos da imprudência agem a todo minuto, é fatal. Foi fatal! Logo, pessoas de todas as partes rodeavam o local, e o homem do carro prateado, que tinha por nome Mauricio, como tantos outros, fugiu.
Bastaram apenas minutos para eu ver que estava deitado sobre uma cama branca, aliás, tudo ali era branco. Eu, realmente, nunca havia visto algo tão alvo em toda minha vida de lava pratos de lanchonete. Matilde, como se chamava a tímida e pálida mulher, estava do meu lado. Depois de algum tempo em não sei qual sala daquele hospital, levaram-nos juntos para outro lugar, ainda mais claro que o primeiro. Vi Matilde pulando à medida que aparelhos tocavam seus peitos despidos. Senti choques abraçando meu corpo tentando reanimar-me, mas fui apagando, até desmaiar totalmente.
Não enxergava nada naquele lugar, então meus olhos foram se abrindo aos poucos. Primeiro vi a forma de um corpo feminino, depois cores, coisas concretas. Vi Matilde se aproximar.
-Eu te amo! – falou ela. Mas como alguém que mal me conhecia poderia dizer isso? Estaria eu no céu? Acontece que estava muito quente e Matilde é quem me esfriava com seu esvoaçante abraço angelical. Senti os choques novamente. Vi as luzes projetando meu desenho na cor invernal do concreto.
Eu sabia que estávamos morrendo, mas éramos tão pecadores assim a ponto de chegarmos ao inferno e realmente ver a morte de perto? Que contradição é essa vida.
Deixei Matilde, apaguei novamente, dessa vez fui de verdade para o céu, ou pelo menos parecia ser, eram paredes tão macias e gélidas, talvez fossem as nuvens, mas aquele lugar não era lá assim tão interessante sem a presença da mulher que eu amava. Pensei nela. Nesse momento, apareceram-me seus belos cabelos louros.
-Matilde...
-Nunca me deixe novamente! - Ela falou, me interrompendo.
-Nunca! – E eu ainda não entendia como ela poderia me amar. Seria efeito da queda? Ou talvez obra de Deus? Mas não importava, eu estava feliz naquele momento.
-Matilde, onde estamos?
-Não importa meu amor, estou com você e irei até onde você for. Até a mais radiante alvorada da mais bela cor existente no afeto e na paixão.
-Eu te amo! – Era o que eu conseguia falar.
-Eu também te amo.
-Vamos Matilde, arcanjos nos esperam ao portão de ouro brilhante, vamos. – Eu finalmente consegui me desembaraçar. Percebi que aquela era a luz no fim do túnel de que tanto falamos. Nos dirigimos a ela de mãos dadas, paramos bem à frente dos ferros brilhantes e nos abraçamos, beijamo-nos, e bem ali, concluímos o prazeroso ápice do amor.
-Você me fez feliz, Arthur. – Como ela sabia meu nome? Mas isso também não tinha a mínima importância, não mesmo.
-Ah! Matilde... Abraça-me! Tu me encantas ao falar! Me banhas de ternura ao me olhar! Fascina-me apenas por existir, pois que tu és tão agradável e por ti morrerei se preciso for graciosa mulher. – Ela encostou sua boca avermelhada em meu ouvido e suavemente sussurrou.
-As mais belas palavras que ouvi em todo esse tempo de empregada de lanchonete. Morrerei feliz se assim for previsto para mim, entrarei nas entranhas desse mundo sem ti e tu não se esquecerás de mim. – Era ela, a bela mulher com farda pregada no corpo que sempre limpava a lanchonete, era Matilde, passou despercebida por meus olhos, eu não a reconheci, mas agora estava junto a ela e não queria mais saber o que aconteceria, esses foram os melhores momentos de minha vida.
Matilde e eu acordamos novamente com os choques, nossas camas que se encontravam próximas uma da outra pulavam junto a cada “Afasta” que vinham de bocas de pessoas com jalecos limpos. Virei alguns graus até poder ver o rosto de Matilde e ela fez o mesmo movimento. Olhamo-nos uma ultima vez. Eu pude ouvir ainda por alguns segundos a troca de vários bips de meu peito por apenas um prolongado som.
Eu me fui!
Matilde ficou!
Rezei para que aquela promessa que fiz fosse cumprida agora por ela. Rezei para que Matilde não me esquecesse.
Mesmo depois de atravessar esse imenso e majestoso portão de pedras preciosas, sempre a guardei, lembrando para sempre que houve um tempo em que mergulhei profundamente nos braços da paixão de alguém.
Sentado em tronos de prata, fiquei a esperá-la, nessas luminosas hastes do sol onde se encontram vários amores cravei meu coração, e junto das chuvas mandei lágrimas saudosas por vê-la feliz.
Nunca desejei que Matilde viesse a mim tão depressa, mas que viesse a mim assim, quando em fogo ardiloso conseguisse reparar-me novamente.
Banhei-me. Vesti-me. Meu corpo caminhava calmamente rumo à lanchonete de uma classe não muito vista pela sociedade, enquanto meu mundo dava voltas e mais voltas à minha frente, passadas velozes, de uma total rapidez. Sentia o cheiro das rosas entupindo minhas narinas, quando por acaso alguém esbarrou em mim.
- Desculpe senhor. – Falou a educada moça de olhos azuis que sincronizava os passos, vindos de outra direção. Eu já havia visto ela antes algumas outras vezes e sempre tinha a impressão de conhecê-la de algum lugar. Acho que a farda que se encontrava colada em minha pele a impediu de me reconhecer. Sempre a adorava quando a essência floral de sua pele encharcava-se em mim, o formato de seu rosto conduzia-me a delirar. Seu cheiro. Sua pele. Seus olhos. Era tudo tão belo, tão cintilante às pequenas aberturas por onde eu conseguia ver, que nem me imaginava nesse mundo.
-Desculpe-me você, bela moça. – Eu falei. Nem sei de onde consegui tirar ar para proferir aquelas simples palavras. Ela tornou a andar. Eu sabia que lá, não conseguiria tê-la para mim. Sua percepção falhava sempre que me avistava, mas ela era tão dócil, que só de notá-la meu mundo acelerava em segundos.
Era uma rua não muito larga, mas às vagarosas passadas poderiam acontecer coisas que jamais esperei, ali, na velha via da quinze com a treze.
Seus passos de balé iam em direção ao outro lado, eu contemplava aquilo, nem me dei conta do carro prateado que seguia em direção ao sinal vermelho. Verde! Assustei-me, naquela hora senti-me obrigado a salva-la, me atirei sem pensar na frente do carro, achei que poderia pará-lo. É sempre assim quando se ama, os traços meticulosos da imprudência agem a todo minuto, é fatal. Foi fatal! Logo, pessoas de todas as partes rodeavam o local, e o homem do carro prateado, que tinha por nome Mauricio, como tantos outros, fugiu.
Bastaram apenas minutos para eu ver que estava deitado sobre uma cama branca, aliás, tudo ali era branco. Eu, realmente, nunca havia visto algo tão alvo em toda minha vida de lava pratos de lanchonete. Matilde, como se chamava a tímida e pálida mulher, estava do meu lado. Depois de algum tempo em não sei qual sala daquele hospital, levaram-nos juntos para outro lugar, ainda mais claro que o primeiro. Vi Matilde pulando à medida que aparelhos tocavam seus peitos despidos. Senti choques abraçando meu corpo tentando reanimar-me, mas fui apagando, até desmaiar totalmente.
Não enxergava nada naquele lugar, então meus olhos foram se abrindo aos poucos. Primeiro vi a forma de um corpo feminino, depois cores, coisas concretas. Vi Matilde se aproximar.
-Eu te amo! – falou ela. Mas como alguém que mal me conhecia poderia dizer isso? Estaria eu no céu? Acontece que estava muito quente e Matilde é quem me esfriava com seu esvoaçante abraço angelical. Senti os choques novamente. Vi as luzes projetando meu desenho na cor invernal do concreto.
Eu sabia que estávamos morrendo, mas éramos tão pecadores assim a ponto de chegarmos ao inferno e realmente ver a morte de perto? Que contradição é essa vida.
Deixei Matilde, apaguei novamente, dessa vez fui de verdade para o céu, ou pelo menos parecia ser, eram paredes tão macias e gélidas, talvez fossem as nuvens, mas aquele lugar não era lá assim tão interessante sem a presença da mulher que eu amava. Pensei nela. Nesse momento, apareceram-me seus belos cabelos louros.
-Matilde...
-Nunca me deixe novamente! - Ela falou, me interrompendo.
-Nunca! – E eu ainda não entendia como ela poderia me amar. Seria efeito da queda? Ou talvez obra de Deus? Mas não importava, eu estava feliz naquele momento.
-Matilde, onde estamos?
-Não importa meu amor, estou com você e irei até onde você for. Até a mais radiante alvorada da mais bela cor existente no afeto e na paixão.
-Eu te amo! – Era o que eu conseguia falar.
-Eu também te amo.
-Vamos Matilde, arcanjos nos esperam ao portão de ouro brilhante, vamos. – Eu finalmente consegui me desembaraçar. Percebi que aquela era a luz no fim do túnel de que tanto falamos. Nos dirigimos a ela de mãos dadas, paramos bem à frente dos ferros brilhantes e nos abraçamos, beijamo-nos, e bem ali, concluímos o prazeroso ápice do amor.
-Você me fez feliz, Arthur. – Como ela sabia meu nome? Mas isso também não tinha a mínima importância, não mesmo.
-Ah! Matilde... Abraça-me! Tu me encantas ao falar! Me banhas de ternura ao me olhar! Fascina-me apenas por existir, pois que tu és tão agradável e por ti morrerei se preciso for graciosa mulher. – Ela encostou sua boca avermelhada em meu ouvido e suavemente sussurrou.
-As mais belas palavras que ouvi em todo esse tempo de empregada de lanchonete. Morrerei feliz se assim for previsto para mim, entrarei nas entranhas desse mundo sem ti e tu não se esquecerás de mim. – Era ela, a bela mulher com farda pregada no corpo que sempre limpava a lanchonete, era Matilde, passou despercebida por meus olhos, eu não a reconheci, mas agora estava junto a ela e não queria mais saber o que aconteceria, esses foram os melhores momentos de minha vida.
Matilde e eu acordamos novamente com os choques, nossas camas que se encontravam próximas uma da outra pulavam junto a cada “Afasta” que vinham de bocas de pessoas com jalecos limpos. Virei alguns graus até poder ver o rosto de Matilde e ela fez o mesmo movimento. Olhamo-nos uma ultima vez. Eu pude ouvir ainda por alguns segundos a troca de vários bips de meu peito por apenas um prolongado som.
Eu me fui!
Matilde ficou!
Rezei para que aquela promessa que fiz fosse cumprida agora por ela. Rezei para que Matilde não me esquecesse.
Mesmo depois de atravessar esse imenso e majestoso portão de pedras preciosas, sempre a guardei, lembrando para sempre que houve um tempo em que mergulhei profundamente nos braços da paixão de alguém.
Sentado em tronos de prata, fiquei a esperá-la, nessas luminosas hastes do sol onde se encontram vários amores cravei meu coração, e junto das chuvas mandei lágrimas saudosas por vê-la feliz.
Nunca desejei que Matilde viesse a mim tão depressa, mas que viesse a mim assim, quando em fogo ardiloso conseguisse reparar-me novamente.
Felipe Barreto
Vencedor do I PRÊMIO GAM DE LITERATURA na categoria conto.

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